AGRONEGÓCIO

Trump se perde no próprio tarifaço

Foto: Casa Branca O Brasil discute como reagir ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio…

Foto: Casa Branca

O Brasil discute como reagir ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, voltou a classificar a sobretaxa como ilegal, indevida e abusiva. Segundo ele, o processo de reciprocidade comercial não deverá ser concluído antes de dezembro.

Mas essa discussão precisa ser observada por um ângulo mais amplo. O tarifaço não representa apenas um problema para o Brasil. Ele começa a revelar as contradições da estratégia econômica e política criada pelo próprio Donald Trump.

O presidente norte-americano abriu uma guerra comercial prometendo proteger a indústria dos EUA, recuperar empregos e reduzir o custo de vida. Ao mesmo tempo, transformou as tarifas em instrumento de pressão política sobre governos e países que contrariam seus interesses.

O problema é que o cenário internacional mudou. A guerra envolvendo o Irã ampliou a instabilidade, pressionou o mercado de energia e complicou ainda mais a situação econômica dos Estados Unidos.

E energia cara não fica restrita aos postos de combustíveis. Ela aumenta o custo do transporte, da produção industrial, dos alimentos e de praticamente tudo o que chega ao consumidor.

A conta chega ao consumidor

Embora o preço da gasolina tenha recuado em julho na comparação mensal, ainda estava 24,6% acima do registrado um ano antes. No mesmo período, a energia acumulava alta de 14,7%.

A inflação americana chegou a 3,4% em 12 meses. Continua, portanto, acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve.

Isso mostra que a economia dos Estados Unidos ainda convive com pressões importantes. E é justamente nesse momento que Trump amplia tarifas sobre produtos, insumos e matérias-primas importados.

Tarifa não é uma conta paga simplesmente pelo país exportador. Em grande parte, ela é incorporada ao preço cobrado das empresas e dos consumidores americanos.

Trump promete combater a inflação, mas adota uma política que pode produzir exatamente o contrário.

Dívida maior e juros mais altos

Existe ainda outro ponto preocupante: o crescimento da dívida pública americana.

Com a dívida aumentando e os investidores exigindo maior remuneração para financiar o governo, os juros dos títulos do Tesouro com vencimento em dez anos chegaram à faixa de 4,6%.

Isso significa que os Estados Unidos estão pagando cada vez mais caro para administrar uma dívida cada vez maior. Os juros elevados também encarecem o crédito imobiliário, o financiamento das empresas e o consumo das famílias.

A guerra comercial, portanto, não acontece em um ambiente econômico confortável. Ela ocorre quando energia, inflação, dívida e juros já representam desafios importantes para o governo americano.

No caso brasileiro, a incoerência é ainda mais evidente. Os Estados Unidos mantêm há anos superávit no comércio de bens com o Brasil. Ou seja, os americanos vendem mais produtos ao mercado brasileiro do que compram do Brasil.

Não existe, portanto, um desequilíbrio comercial que justifique uma punição dessa dimensão. A sobretaxa não nasceu de uma necessidade econômica comprovada. Ela carrega um claro componente político e ideológico. O comércio foi transformado em arma de pressão.

Negociar, mas sem submissão

O Brasil deve continuar negociando. Os Estados Unidos são um parceiro comercial relevante, especialmente para produtos industrializados e segmentos importantes do agronegócio. Mas negociação não pode significar submissão.

A reciprocidade comercial deve permanecer sobre a mesa como instrumento de defesa e pressão. Ao mesmo tempo, sua aplicação precisa ser cuidadosamente calculada para não encarecer insumos importados nem prejudicar as próprias empresas brasileiras.

Reciprocidade não significa repetir o erro cometido pelo outro país. Significa demonstrar que o Brasil possui instrumentos para defender seus interesses.

A realidade começa a desmontar o discurso

Trump tentou reorganizar o comércio mundial pela força. Prometeu proteger a economia americana, mas abriu diversas frentes de conflito simultaneamente.

Agora enfrenta inflação resistente, energia cara, juros de longo prazo elevados, dívida crescente e os efeitos de uma guerra que aumenta a insegurança mundial.

O discurso político pode continuar agressivo. A realidade econômica, porém, começa a cobrar a conta.

Trump transformou a tarifa em arma política. Agora começa a descobrir que essa arma também dispara contra a economia americana.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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Sobre o que trata “Trump se perde no próprio tarifaço”?
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Gustavo Azevedo

Gustavo Azevedo

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